Costumo dizer aos meus doentes que a saúde começa no intestino. Não é uma metáfora: a maior parte do nosso sistema imunitário vive ali, em diálogo permanente com os microrganismos que habitam connosco.

O microbioma intestinal (os biliões de bactérias, fungos e vírus que povoam o nosso tubo digestivo) é hoje um dos campos mais fascinantes da medicina. Longe de serem meros passageiros, estes micróbios ajudam a digerir alimentos, produzem vitaminas e ácidos gordos de cadeia curta, e educam continuamente o sistema imunitário a distinguir o que é amigo do que é ameaça.

Quando este equilíbrio se altera (um estado a que chamamos disbiose), as consequências podem estender-se muito além do intestino. A investigação tem associado alterações do microbioma a doenças autoimunes, alergias, perturbações metabólicas e até ao humor, através do chamado eixo intestino-cérebro. A barreira intestinal, quando comprometida, deixa passar moléculas que mantêm o sistema imunitário em alerta crónico.

Por isso, na minha abordagem, cuidar do intestino é cuidar da imunidade. Uma dieta diversa e rica em fibra vegetal, alimentos fermentados, menos açúcar e ultraprocessados, e o uso criterioso de antibióticos são pilares simples mas poderosos. Nutrir os nossos micróbios é, no fundo, nutrirmo-nos a nós próprios.

Referências selecionadas

Belkaid Y, Hand TW. Role of the microbiota in immunity and inflammation. Cell. 2014;157(1):121–141.

Valdes AM, et al. Role of the gut microbiota in nutrition and health. BMJ. 2018;361:k2179.

Cryan JF, et al. The microbiota-gut-brain axis. Physiological Reviews. 2019;99(4):1877–2013.